"É a imagem na mente que nos une aos tesouros perdidos, mas é a perda que dá forma à imagem." Colette

domingo, outubro 15, 2006

Estou aqui....




Novos pacientes. Alguns que entram, ficam.....outros que partem.
Mais um me chamando de Doutora Simone. Engraçado isso! Devo ter mesmo cara de Simone.

Ele é muito inteligente, sabe tudo sobre a doença que o consome, mas fizemos um pacto de silêncio: não falamos mais sobre ela. Segue todas as minhas orientações e tem uma necessidade urgente de ler, ler e ler cada vez mais. Não sei se terá tempo, pois os dias passam e seu mal progride. Mas ele tenta...

Muitas vezes olho para minha estante de livros e também acho que não terei vida suficiente para ler todos eles, inclusive a Montanha Mágica, do Thomas Mann, que comecei e parei por três vezes. Até desistir de vez. O mesmo aconteceu com Ulisses, do Joyce.

Aliás, Joyce é um chato.
(imagem do novo filme de Luc Besson, sobre um suicida)

sábado, setembro 16, 2006

Piolim.....















(Foto: Diego Padgurschi/Folha Imagem)

Houve passeata em São Paulo, no centro da cidade, em homenagem ao palhaço Piolim. Ele virou nome de rua.

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Eu já quis ser palhaço. Estava no quinto ano da faculdade....

terça-feira, setembro 12, 2006

Amoras....

Tem coisa melhor que comer amoras diretamente da árvore? Não precisa nem lavar, tem que pensar que está limpa e acreditar no poder do seu suco gástrico. Pois é, comi um monte lá, enquanto aguardava os familiares de uma paciente que havia partido fazia pouco tempo.
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Ela foi professora. Talvez uma daquelas professoras enérgicas que não se vê mais nos nossos dias. Mas daquelas que, certamente, a maioria de nós já teve uma igual.
Casou-se, não teve filhos porque viveu para sua profissão. Ou talvez porque não conseguiu tê-los mesmo.....quem poderá dizer?
Daí o tempo passa e, claro, envelhece. E como a maioria dos velhos deste país injusto, adoece. Aparece uma hipertensão aqui, um diabetes ali, artroses....encolhe. Porém, o pior ainda viria: Alzheimer. E saiu de órbita. Dizem...
Mas não dava para acreditar que ela estivesse completamente demenciada, pois quando lhe falávamos baixinho, perto de seu ouvido, lançava um olhar que desmentia tal hipótese. Parecia entender tudo e, mais do que isso, querer falar com a gente.
Saiu de cena, após longos meses naquela cama. Era nossa queridinha, nosso amuleto da sorte...O que será de todos nós agora?

segunda-feira, setembro 11, 2006

O tempo que resta.....


Filme de François Ozon, o segundo de uma provável trilogia sobre a morte. O primeiro, Sous le sable, com Charlotte Rampling, é muito bom......Mas, Le temps qui rest é melhor ainda.
Claro, meio deprê para quem entra desavisado no cinema, como todo filme que toca no assunto finitude. Neste caso, o protagonista jovem descobre ser portador de câncer e ter pouco tempo de vida. Não vai em busca de resgates. Pelo contrário, foge deles.

Confesso que saí do cinema como se tivesse levado um soco no estômago, tamanho desconforto que o filme me causou. Parei para um café, mas não conseguia engolir nada. Só tinha urgênia de correr para bem longe. Mas, para onde?

Embora esteja certa de que minha vida, daqui por diante, será mais dedicada aos cuidados paliativos que à cirurgia, sinto que muitas vezes o tema morte me faz sofrer. Não sei ainda se sofro pelos que foram ou pelos que irão....
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Hoje tivemos música para nossos pacientes. Um quinteto de metais muito bom, cinco saxofones...Todos gostaram, nós mais ainda.
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Prometi-me ser mais assídua por aqui. Vou cumprir.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Caminhos....


Não, não desisti do espaço.
Fiquei doente por três semanas, uma gripe mal curada, que se transformou em laringo-traqueíte. Tive de dormir sentada por muitas noites, tamanha era a tosse. Agora estou bem melhor.
Fora isso, ando lendo muito, estudando um monte de coisas para aplicar no dia-a-dia dos cuidados paliativos.
Cada vez mais eu me convenço de que o meu caminho é este...
(foto: Montmartre)

terça-feira, julho 25, 2006

Domingo cinza...

Um certo dia ele acordou e não quis sair da cama. Estava estável, não era um paciente terminal. Devagarinho começou a chamar por alguns parentes. Despediu-se de todos.
Ninguém entendia o que ele estava fazendo, até que nos diz que está pronto para partir.
Deitou-se num sábado à noite para não mais acordar no domingo cinzento...
Neste ano, o Dia Mundial será em 7 de Outubro.
Vamos comemorar...

segunda-feira, junho 12, 2006

Verde e amarelo....



Parece que todo mundo está em clima de Copa do Mundo. O pessoal enfeitou a sala, a escada que leva aos quartos, a varanda, com balões verdes e amarelos. Amanhã, dia de jogo do Brasil, todo mundo vai para a frente da televisão. Como numa casa normal...


(Foto: Viviane)

sexta-feira, junho 02, 2006

Fim do silêncio...

Nossa paciente voltou quinze dias depois de sua alta.
Soubemos que permaneceu abandonada em sua casa, na cama, com seu alimento sendo colocado numa cadeira ao seu lado. Por isso não comeu. E definhou. Definhou tanto a ponto de não mais se mexer.
E foi abandonada no hospital por sua vizinha. E foi assim que eu a reencontrei na enfermaria: completamente sozinha, de olhos fechados, sem força para abri-los.
Fiz-lhe um carinho e chamei seu nome. Abriu seus olhos fundos com muita dificuldade e conseguiu esboçar um sorriso para mim. Senti que me reconheceu e achei, sinceramente, que iria se recuperar.
Partiu no dia seguinte, depois de voltar para lá e ser recepcionada como merecia. Recebeu carinho de todos, falou, chorou, mas comeu muito pouco. Nada mais interessava para ela.
Fez todo mundo chorar...

domingo, maio 28, 2006

segunda-feira, maio 15, 2006

Caos...

São Paulo está um caos...
Entro na casa, e me sinto segura. Todos estão preocupados com alguém da família, filhos, maridos, pais, mães. Mas lá todos se sentem seguros. Parece que o lugar possui uma cerca invisível que nos protege das coisas ruins que acontecem pela cidade.

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Nossa paciente que ficou muito tempo fora de órbita melhorou e foi, finalmente, para sua casa. Despedi-me dela, na sexta-feira e ela me perguntou se poderia voltar algum dia.

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O senhor é bem diferenciado. Um arquiteto aposentado, com uma doença avançada. Uma história de vida complicada, como muitas outras que escuto por lá.
Apesar dos olhos fundos e tristes, das reclamações de dores por todo seu corpo, apresentou momentos surpreendentes de bom humor. Chegou até a sorrir...Foi um sorriso espontâneo e que deixou sua filha muito feliz. E eu também...

domingo, maio 07, 2006

Volta à rotina...

Amanhã eu volto a trabalhar pesado. Pela manhã, hospital. De tarde, lá...

[A imagem mostra a Ponte Bir-Hakeim, que aparece no Último Tango em Paris. Lembra-se dela?]

quarta-feira, abril 26, 2006

Período sabático...

Estou sem ver pacientes há 10 dias, numa espécie de período sabático. Falo isso, porque férias sem viagem é período sabático pra mim.
Tenho aproveitado para ler muito sobre cuidados paliativos e sobre vida-morte.
Terminei o primeiro da Kübler-Ross e devo emendar o segundo em breve. O grande problema é que eu não consigo ler somente um livro por vez. Leio pelo menos uns três. E o engraçado é que não dá curto-circuito na minha cabeça...
Tenho sentido falta das histórias e dos pacientes...
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Esqueci-me de contar....Nossa paciente que fez 50 anos noutro dia partiu exatos 15 dias após a festa. Já na semana seguinte passou uns dias em sua casa, mas já saiu de lá um pouco ictérica. Quatro dias depois retornou, pois não se sentia muito bem: apresentava fortes dores abdominais e que não estavam sendo controladas com a dose de morfina que estava tomando.
Bem, cinco dias depois entrou em processo de morte. Porém, partiu rodeada de amigos e de seu filho.
(imagem: teto pintado por Marc Chagall, L´Opera de Paris)

quarta-feira, abril 19, 2006

Poesia sem título...

A morte em mim. Alguém (o medo) desce
Uma rua noturna, e de repente
Vê, soturna, no céu, a Lua, e sente
O horror da Lua, e súbito enlouquece.

A morte em cada ser. E alguém (a mágoa)
Que por insone chega-se à janela
Possui a mesma Lua dentro dela
Que em sua carne se transforma em água.

A Poesia em tudo.
E a doçura de não ser mais.
FicaráSentado, na vertente, junto ao rio
Vendo umas nuvens brancas, vendo o rio.

Poesia sem nome de Vinícius de Moraes, in Poesias coligidas, Nova Aguilar, 1998.

domingo, abril 09, 2006

Descanso...

Descansei durante o final de semana.
Volto amanhã para o hospital, logo cedo. Mas é à tarde que me dedico aos cuidados paliativos.
Sei que mais uma paciente nos deixou, aquela que fez aniversário noutro dia. Todas suas vontades foram feitas, incluindo a principal, que era não colocarem nela nenhum tubo para que sua vida fosse prorrogada.
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Estou quase no final do livro de Elisabeth Kübler-Ross, Sobre a Morte e o Morrer.
Para quem não sabe, ela foi uma psiquiatra americana que se dedicou ao estudo dos pacientes moribundos. Não gosto da palavra moribundo, mas é como ela usa. Então transcrevo aqui.
Depois farei um post falando sobre o livro, que é um clássico.
(imagem: cristais de estrógeno, daqui)

quarta-feira, abril 05, 2006

Desamparo...

Devo confessar que fiquei muito abalada com a partida de nossas três pacientes, no último final de semana. Cada uma delas com uma história de vida difícil, tendo em comum a mesma doença.
Fizemos um bom trabalho com elas, assim como com seus familiares, mas a inevitável a sensação de desamparo que eu sinto agora é muito grande...
(Imagem: Kandinsky)

sábado, abril 01, 2006

Eles dobram por ti...


"...No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main. If a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend’s or of thine own were: any man’s death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bells tolls; it tolls for thee... "

John Donne


"...Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se tivesse perdido um promontório, ou perdido o solar de um teu amigo, ou o teu próprio. A morte de qualquer homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido; por isso, nunca mandes indagar por quem os sinos dobram; eles dobram por ti."

(leia tudo aqui, em inglês)
(imagem: Catedral de Notre Dame)

sexta-feira, março 31, 2006

Kim...

Hoje eu pude presenciar que lá tudo é possível...
Nossa nova paciente, uma senhora portadora de câncer avançado de pâncreas, já com encefalopatia devido à insuficiência hepática, queria muito despedir-se de seu cachorrinho, o Kim.
Permaneceu internada e em coma por vários dias, contra-indicando sua ida para lá. De repente, abriu os olhos, teve uma melhora súbita.
Imediatamente foi para lá transferida e sua filha foi buscar Kim, para que ela pudesse dizer adeus.
O cãozinho, um poodle branco, no começo ficou ressabiado. Mas depois, aproximou-se dela, que estava torporosa, e lhe lambeu a face.
Não sabemos se ela percebeu, mas para sua filha isso foi muito importante.
Tive que sair do quarto para chorar...
(imagem: Cartier-Bresson)
* * * * *
Atualização: a paciente partiu nesta madrugada de domingo.

sexta-feira, março 24, 2006

Depuis qu'Otar est parti


Lembrei-me deste filme hoje....
Um belo filme sobre a sabedoria dos idosos. A mãe,a filha e a neta, na Georgia. O filho médico resolve tentar a vida na França, Paris....como trabalhador de construção civil, e acaba morrendo ao cair de um andaime. Daí começa a história: a filha, com medo de contar para a mãe idosa, escreve cartas como se fosse ele, o filho. Mas quem as escreve é a neta. Até um dia que a mãe, a idosa, vende toda sua valiosa biblioteca de literatura francesa e compra três passagens para Paris, para visitar o filho. Imagine a situação...
Mas, quando filha e neta menos imaginam, a mãe idosa descobre que seu filho está morto e reage de forma inesperada. Lindo filme, linda a atriz octagenária que faz a Eka.
Tudo isto para dizer que, quando menos esperamos, um idoso reage de maneira contrária às nossas expectativas.
Nossa criança velha, de olhos azuis, nos diz hoje de tarde que sua mulher está partindo...
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